Estávamos em 1968, ano de muitas turbulências políticas. Meu irmão mais velho, seguindo as convicções políticas de meu pai, tornara-se líder estudantil. Era presidente do Grêmio do Colégio João Cursino.
Gostava de falar sobre política, dom herdado de meu pai, e como irmão mais velho se divertia me ensinando a falar palavras de ordem e a dar respostas para suas perguntas.
Quando chegava algum amigo ele dizia que o “Negão”, era esse meu apelido pela cor adquirida na prática de natação, sabia das coisas e me chamava para a sabatina. Seus amigos achando que veriam um menino forte e negro se surpreendiam com uma meninha queimadinha de sol, mas que em nada poderia parecer com o apelido recebido.
A sabatina era recheada de perguntas como: Quem deve ganhar a guerra, os Vietcongs ou o Vietnã do Sul? Todas de cunho político.
Na parede do quarto, mesmo a contra gosto de meu pai, chamava a atenção uma foto de Che Guevara. Explico o contra gosto de meu pai. Depois da prisão a que foi submetido em 1964, ele temia pela vida de meu irmão e não queria nenhum símbolo na parede que pudesse comprometer a família em uma investida policial, como a que ocorreu em nossa casa em 64.
Eu admirava aquela figura toda em vermelho e preto, admirava a inteligência e todo o conhecimento de meu irmão super-protetor. Por essa razão, guardei mais essa lembrança entre tantas, assim como a sensação do carinho que ele tinha comigo, do abraço gostoso, das inúmeras piadas, das histórias e de todo amor entre nós. Eu era sua irmãzinha e para ele essa imagem durou muitos anos.
“Mídia social é psicologia na veia”
por: Norma da Matta Criado por Tuiuiú Comunicação
